LEI DA ROLHA
O Congresso do PSD demonstrou uma falsa aparência de união tão necessitada e imperiosa neste sector partidário onde a convergência de objectivos e trajectos alternativos à governação deste país está muito longe da consensualidade, enquanto o “velho património” das ideias dos barões prevalecer a teimosia intelectualmente ultrapassada e, acima de tudo, não surtir a aposentação política de alguns sociais-democratas, que já começam a ser um estorvo na urgência de uma imagem mais fresca, jovem e inovadora, como um projecto amplamente mais dignificante num país doente, caduco de soluções, estático e socialmente desfigurado.
Quem seguiu de perto os trabalhos e as intervenções do Congresso do PSD, identificou rapidamente que a alma “laranja” ainda padece de muitos desencontros dos princípios ideológicos implementados por Francisco Sá Carneiro, sectarismo, manipulação activa de “clubites” e ainda permanece um sinal de desconfiança em torno do cômputo geral de uma só voz dentro do partido. O PSD não resistiu em subscrever a Lei da Rolha. O candidato Pedro Passos Coelho tem dúvidas sobre a constitucionalidade da proposta de Pedro Santana Lopes e “espera no próximo Congresso poder alterá-la”, afirmou aos jornalistas, em Mafra, no final da reunião magna, o mesmo acontecendo com os restantes candidatos à presidência deste partido.
Diz Pedro Passos Coelho que “preferia que o PSD não tivesse aprovado, neste Congresso, essa disposição”, acrescentando que “devemos respeitar as opiniões dos outros mesmo que não sejam coincidentes com as nossas”. Garantiu ainda que “será, seguramente, subscritor de uma proposta de alteração que vise não penalizar militantes por delito de opinião”. Também José Pedro Aguiar-Branco não concorda com a aprovação na norma e diz mesmo que se for eleito pode revê-la. “Eu, pessoalmente, não concordo, mas também não vale a pena fazer um caso daquilo”. Já Paulo Rangel admitiu que se pudesse “teria votado contra”, mas mostrou-se compreensivo, por considerar que os partidos “devem ter regras”. Como seria de esperar, Pedro Santana Lopes defendeu a sua “dama” e considerou que além de ser “constitucional”, a norma não é uma “lei da rolha”. “Acho que o facto de a norma ou este tipo de orientação não existirem prejudicou muito o PPD/PSD, nos últimos anos”, disse. Já Manuela Ferreira Leite não especifica se concorda com a proposta e prefere salientar que acha “muito bem” que haja sanções no PSD para militantes porque “limita a possibilidade de se poder participar num partido não cumprindo as regras”.
Conclusão: percebeu-se a diferença e a divergência desta proposta “santanista” que não colheu frutos de boa receptividade e a promessa da sua eliminação é, pelo contrário, consensual nos quatro potenciais candidatos. O direito de opinião foi sempre uma componente de grande respeito no PSD. Os seus militantes e simpatizantes nunca foram impedidos de comentar ou mesmo criticar as atitudes depreciativas dos dirigentes ou as tomadas de decisões que motivassem insatisfação nas linhas-mestras para as quais se propunham vincularem-se.
Acreditamos que a Lei da Rolha no PSD apenas terá um significado exclusivo no papel, foi uma imagem emotiva que passou para silenciar os eternos e incómodos destacados militantes, desenhados como as “ovelhas pretas” e já é tempo da tosquia da “língua” e de mantê-los com a calma necessária para não estragarem o próximo episódio, que se chama nova liderança. As tentações para violação dessa promessa de estar calado são superiores ao cumprimento da mais recente alteração estatutária, punir quem se atreve a mandar umas “bocas” no meio alheio sem a ordem do “chefe”.
Albino Gonçalves
15/03/2010